Lourenço Mutarelli – O Homem que Faz o Ralo Cheirar

October 27, 2007 on 12:50 am | In Cinema, Entretenimento, Entrevista, Escrita, Livros, Quadrinhos | 9 Comments

Cartaz Lourenço Mutarelli na Fnac A Gibiteca de Curitiba está comemorando 25 anos de existência com vários eventos pela cidade. Nesta quinta-feira foi a vez do Lourenço Mutarelli fazer um bate papo na Fnac do Park Shopping Barigüi. Eu como fã confesso do cara a mais de vinte anos, liguei imediatamente para a Mitie da Itiban para ver se conseguia uma entrevista com ele.

Cheguei lá por volta das 19:00h e já tinha algumas pessoas esperando. Sentei em uma mesa, com mais alguns fãs de quadrinhos e ficamos conversando, até que o Lourenço apareceu. No final das contas foi uma entrevista coletiva. Aqui eu adaptei as perguntas ao que o Lourenço estava falando, então não esperem uma entrevista normal. O tom coloquial e cheio de repetições é porque era uma conversa mesmo, curta e grossa.

Mas para falar do Lourenço tenho que fazer um introdução. Mas o que falar de um cara que você admira por vinte anos seguidos? De um cara que ganhou vários prêmios, que fez a transição dos quadrinhos para a literatura de forma magistral? De um cara que tem um humor negro refinado, que desenha coisas maravilhosamente grotescas, que te deixam enjoado mas, ao mesmo tempo, iluminado?

O Lourenço e sua obra são tudo isso e, ao mesmo tempo, nada disso. Um cara simples, que toma vários remédios para controlar suas psicoses. Um gentleman, que gosta de abraçar, e conversar por mais de duas horas seguidas sem te deixar cansado. Um cara que te faz rir com suas histórias de vida. Rir até das desgraças que passou, que imprimiu com nanquim forte nos vários álbuns que desenhou.

Gravei o bate papo e extraí as partes que achei mais interessantes. Ainda tem muito material, mas acho que daí o melhor seria escutá-lo inteiro. Quando eu descobrir como exportar os dados do software proprietário do gravador, coloco o áudio na integra aqui no blog.

Por enquanto aproveite as idéias deste cara que extraiu da loucura álbuns e livros extremamente belos, para corações fortes, purificando-se com tudo isso.

Com você, Lourenço Mutarelli!

Lourenço Mutarelli

Como foi fazer O Cheiro do Ralo?

Quando eu fiz O Cheiro do Ralo foi um surto. Um surto mesmo! Eu estava trabalhando na trilogia, na última parte de A Soma de Tudo. Eu tinha algumas ilustrações para fazer, uma capa para a Record, e daí a minha mulher e meu filho viajaram no carnaval e daí eu liguei o computador para escanear um desenho e daí veio esta idéia e eu pensei e comecei a escrever. Fiquei cinco dias direto ali. E quando a minha mulher chegou eu disse: “Eu fiz uma coisa”. Ela falou “Outra merda”, “Não, não. Eu fiz um negócio que acho que é um livro”.

Quando eu levei para a Devir o pessoal lá pegou e jogou na gaveta. Daí eu recebi um email do Arnaldo Antunes dizendo que gostou do manuscrito. O pessoal da Devir disse que se o Arnaldo autorizasse colocar a carta no livro eles publicavam. Daí eu fiquei meio mal com aquilo. Além disso eu tinha que fazer a ilustração da capa, que eu não queria. Eu queria é uma foto. No final acabaram publicando.

Quanto? Tanto! Em O Cheiro do Ralo as pessoas não falam no valor das coisas, dizendo somente “quanto? tanto!” Tenho a impressão que este tipo de situação permeia o livro. Essa atemporalidade foi intencional?

Como foi o meu primeiro romance eu achava que as coisas tinham que ser o ideal para cada um. Olha a bunda. Ela tinha que ser o ideal de cada um. E não alguma coisa que eu desenhasse. Cada um tinha que construir aquele personagem. Não só isso, como outros elementos. Eu achava que os valores também. Por isso os personagens não têm nome e as coisas não têm valor. Não é só buscando a atemporalidade, mas também buscando uma interação maior. Era a primeira vez que eu estava desenvolvendo uma história que estava liberta das imagens desenhadas. E também porque eu achava uma coisa muito legal. Como o problema do sifão. Eu sei que aquele problema lá não era sifão. isso não importa muito. Tem uma coisa que escrevi na trilogia que se um cara morre de pé isso dá muito azar. Muita gente veio me perguntar se isso era verdade. É claro que não era. Eu gosto disso pois é uma ficção. Eu gosto de colocar coisas ali que talvez não sejam reais e não tem como a gente saber.

E sobre o filme?

Eu conto uma história que é sempre a mesma, mas é uma história excelente da minha relação com o filme O Cheiro do Ralo.

Quando o meu filho era pequeno, tinha uns 7 anos, ele ouviu eu negociando os direitos por telefone e me perguntou se o meu livro iria virar um filme. E eu disse que sim. Daí ele me perguntou se seria um filme que a gente iria ver no cinema comendo pipoca. E aí me deu uma luz, e eu vi que era isso. O filme era isso para mim.

Eu quero que quem me adapte tenha liberdade pois uma outra mídia e não me compromete. É diferente de uma peça de teatro. Na peça tem o seu nome como autor. Se alguém muda o final da peça, como fizeram, você se queima como autor. Mas no filme, que é uma adaptação, o pessoal faz o que quiser.

Eu só tive problemas para receber. De resto foi ótimo. O set era maravilhoso e o pessoal também. O Nina, por exemplo, teve muitos problemas no set. No Cheiro era ruim ir embora. Todo mundo que entrou era porque gostava do projeto.

Quando vinham me perguntar alguma coisa eu dizia que só tinha escrito o livro, que o Selton conhecia o livro melhor do que eu. E era verdade! Depois que escrevi o livro nunca mais o li. Eles lembravam e sabiam de coisas muito melhor que eu. Eu não sabia se uma coisa era de um livro ou de outro que eu tinha escrito. Não lembrava mais.

E o segurança?

Ele foi um personagem que a gente criou no set de filmagem. A gente brincou com o meu dote físico. Num dos dias de filmagem vi um cara magrinho saindo de uma academia. Ele saiu com o peito todo estufado, devia ser o primeiro dia dele lá. E é isso mesmo, não é o que a pessoa é, mas o que ela sente que é. E fui isso que usei no meu personagem.


E o livro do Jesus Kid?

Foi um projeto que o Heitor Dralha me apresentou. Ele disse que queria uma história de um escritor que ficasse num hotel e tivesse que escrever um livro. Daí todo dia ele me ligava e daí incluía algo na história. Pedia para incluir batatinha frita na história, mulheres gostosas, que tivesse um contexto social… Era assim todo dia.

Daí eu ia incluindo estas coisas no livro. Eu só dizia: legal. E eu conseguia encaixar isso. E daí um dia ele falou que tinha um cara num hotel, que a gente poderia filmar de graça. E que o filho dele era marombeiro, e pediu para eu colocar um halterofilista. E eu botava. E tudo o que o cara pedia eu ia colocando. Então no fim eu me divertia muito com tudo aquilo.

Como é o seu processo criativo, como você escreve?

Eu tenho uma primeira leitora. Eu conheço ela desde os tempos de fanzine. Dei o Cheiro do Ralo para ela ler e gostou muito. A Lucimar também lê muito as minhas coisas.

A minha sorte é quando eu estou trabalhando eu esqueço de tudo. Eu me envolvo com aquilo. Então eu não penso que vai ser publicado; eu não penso que as pessoas vão ler. Então tudo que eu faço é uma experiência. Eu não tenho medo se vai ficar bom ou se vai ficar ruim.

Então, nesta oficina que eu dou eu trabalho muito isso. A coisa para que as pessoas desaprendam a escrever. Eu sinto que as pessoas destravam tanto no texto que é uma coisa tão legal que eu quero fazer isso mais vezes. O que eu faço é tentar quebrar alguns vícios e algumas travas.

Com O Cheiro do Ralo e o Natimorto eu diria, se fosse espiritualista, que praticamente psicografei. Eu costumo dizer que é uma entidade que me pega por trás, com força, e aí o negócio vai. Eu não faço nada. Depois eu deixo descansar um pouco e enxugo algumas coisas.

A Lucimar também me ajuda, dizendo o que acha das histórias. Mas eu sei quando eu devo ouvir ela e quando devo confiar no que escrevi.

Com relação ao uso de roteiros

No começo eu não usava roteiros, tinha a idéia na cabeça e ia fazendo. Transubstanciação é assim e o Desgraçados é assim. Quando eu fiz Eu te Amo Lucimar que é uma estória mais mais elaborada para se trabalhar, que tem flashbacks, foi a primeira vez que eu roteirizei. E isso para você quadrinizar é uma liberdade muito grande daí eu desenho como uma filmagem. Eu desenho fora de ordem porque eu tenho todo o roteiro pronto e todos os diálogos.

Isso era bom porque eu sempre começava desenhando pelas partes mais chatas e mais difíceis. Pois o problema é esse: eu escrevia um roteiro em quinze dias, um mês. Aí eu ia levar dez meses para desenhar isso. Então esse é um dos motivos que eu parei os quadrinhos. Me dizem que parei por causa de grana. Também foi por causa de grana. Em Brasília fui dar uma palestra como quadrinhista. Me pegaram num ônibus e pagaram um cachê horrível. Depois voltei lá como escritor. Apareceu uma van com ar condicionado e ganhei um baita cachê.

E eu sempre me depreciei. Eu sempre dizia que eu não era artista, mas que eu era um artesão. Na literatura é tudo diferente. As pessoas te tratam com admiração, respeitam o seu trabalho.

E os livros maiores? Queremos livros com 300 páginas!!

Eu estou tentando fazer isso. Estou escrevendo mais devagar. Mas eu tenho um problema, gosto do minimalismo. Eu gosto do contrário do que eu fazia nos quadrinhos, que era um excesso de informação e de detalhes. Eu gosto de construir com muito pouco.

Mas eu preciso fazer. Os editores estão pedindo. Eu tenho muito medo de acabar fazendo uma coisa chata. Se eu escrevo uma história assim em 100 páginas imagina o que eu vou fazer num de 300. Só se eu escrever uma saga de cinco gerações. Mas eu estou mesmo a fim de fazer algo assim. Eu estou tentando! :-)

E eu escrevo uma palavra por linha, daí fica mais fácil. E agora eu estou escrevendo mais certinho e a coisa não rende :-) Mas eu estou fazendo um livro assim, normal, cinza. Você olha e não é só o cantinho escrito.

O livro do Serial Killer vai ser bem detalhista assim, eu prometo! :-)

Lourenço Autografando

E a experiência de escrever um blog em Nova York?

O blog me salvou. Tem uma coisa que eu não podia botar no blog. Depois de quinze dias por lá eu entrei em uma depressão violenta. Eu comecei a ficar muito mal e senti que eu ia desandar. Eu sabia que eu tinha que levar pouco remédio por causa da alfândega, mas daí eu fiz um truque. Coloquei mais duas cartelas dentro da caixinha. Eu comecei a desandar lá e em um momento eu estava muito ruim e daí eu juro que foi o blog que me salvou.

Mas eu não consegui manter o blog aqui. Era muito bom para mim entrar ali e ver que aquelas pessoas estavam lá me acompanhando. Quando eu voltei para SP, na minha solidão, na minha casa. Daí era uma coisa diferente. Eu tenho muita coisa para fazer e daí não dava mais tempo. Lá foi muito bom poder falar, dividir. Foi muito terapêutico.

Autógrafo do Lourenço no meu livro O Natimorto

E a sua relação com os computadores?

Eu jogo paciência e escrevo. Eu detesto Internet e emails. Não consigo, ler ou responder um email. Eu não leio email. Quem faz isso para mim é a Lucimar. Faço tudo no rastro da Lucimar.

O primeiro computador que eu tive foi um Apple, que eu ganhei e era usado. E daí eu entendi porque o símbolo era uma maçã. Porque aquilo é uma tentação, um lugar só para você fazer besteira, jogar paciência e perder tempo com a pornografia na Internet.

Agora, o computador para escrever é ótimo. Eu não conseguiria escrever sem um computador. Antigamente, quando eu tentava escrever não funcionava. Eu não conseguia tabular, ficava tudo torto. A linha não acertava, você tacava branquinho. Eu nunca seria um escritor com máquina de escrever.

Eu tive um palmtop por uns dois anos e meio e era viciado. Fazia tudo nele. Por sorte ele pifou e daí eu voltei a usar caderno. E também porque eu já estava desandando, usando ele para filmar coisas na rua. Eu não presto para isso.

O computador, no meu jeito, só funciona para jogar paciência e escrever.

Eu e o Lourenço

E no final da noite tiramos as tão conhecidas fotos, o Lourenço autografou vários livros e acabei indo jantar junto com ele, Xico e Mitie, donos da Itiban.

Conversamos bastante e foi um noite agradabilíssima.

Lourenço, gratidão!

9 Comments »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. [...] Era um desenho intrigante de um cara parecendo estar crucificado, retirado de uma história do Lourenço Mutarelli, que vai ser tema de um outro post. Só posso dizer que o cara é fantástico, no estilo ame-o ou o [...]

    Pingback by Bad Jack - Um Fanzine | Empirical Empire — October 27, 2007 #

  2. Querido Rodrigo ! Adorei que vc deu uma saidinha dos bastidores do Orkut,da comunidade do Muta, para encontrar o cara !É impressionante como ele consegue estar tão próximo dos fãs, e nos deixar rir das suas historias…Longa vida ao LOURENÇO MUTARELLI !!!
    Que a ciência crie o remedinho de lembrar dos sonhos!!!!

    Comment by mitie — October 27, 2007 #

  3. Ouch, mas que show de bola!
    Achei interessante ele não gostar de emails, hehe

    Valeu por compartilhar a experiência Rodrigo.
    []s

    Comment by Beckmann — October 27, 2007 #

  4. Muito legal a entrevista.
    Assisti o Cheiro do Ralo e nem sabia que o segurança era o próprio autor!

    Comment by Bruno — October 28, 2007 #

  5. Gostei muito da entrevista!

    Infelizmente acabei não indo à Gibiteca na sexta e perdi de novo de ver o Mutarelli e de ganhar uma assinatura na minha cópia do Transubstanciação. Acho que esta foi a terceira vez que ele esteve na cidade e que eu acabei faltando.

    Estou esperando o Cheiro do Ralo sair em DVD para comprar (se é que já não saiu). E tenho que assistir Nina, que ainda não vi. :-)

    Abraço!

    Comment by Felipe — October 28, 2007 #

  6. Rodrigo só tenho que agradece-lo por postar aqui a entrevista com o meu LÔ.
    Conheço este personagem desde 1991, gostei do cara na hora em que vi. Entrei na vida dele de abelhuda que sou, mas só ganhei com isto.
    Sou fã, amiga, já passei dias na casa dele bebi muito café feito pelo LÔ, ri muito com esta figura maravilhosa. Lourenço a gente tatua no coração, é para sempre!
    Obrigadão ficou ótimo o papo descontraído e ele é assim mesmo, sincero, afetuoso, tímido uma linda criança no corpo de um jovem Senhor.
    Um grande abraço para vc. Continue seu trabalho, quanto ao Mutarelli ele é um cérebro!

    Comment by Esther Villela — October 29, 2007 #

  7. Olá Esther!

    Que legal. Também gosto muito do Lourenço!

    Comment by Rodrigo Stulzer — October 30, 2007 #

  8. Muito bom o seu blog. Pena que deu uma parada. Fui um leitor voraz, por isso gosto quando encontro que adora ler. Ainda leio muito. Abraços.

    No meu blog tags sobre Livros: http://grandeonda.blogspot.com/search/label/Livros

    Comment by Carlos Medeiros — January 19, 2008 #

  9. [...] Stulzer, do Empirical Empire publicou uma entrevista com o Mutarelli em seu blog: Quando o meu filho era pequeno, tinha uns 7 anos, ele ouviu eu negociando os direitos por telefone [...]

    Pingback by Entrevista com Lourenço Mutarelli | Livros e afins — November 30, 2011 #

Leave a comment

XHTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Powered by WordPress with Pool theme design by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds. Valid XHTML and CSS. ^Top^